O homem que errava

Osmar era um bom homem. Trabalhava como se deve, pagava as contas como se deve, era bom pai, bom marido, em fim, era um cidadão comum. Seus dias corriam na maioria das vezes tranqüilos, exceto quando errava. Sim, senhores, Osmar errava. Esquecia coisas importantes, e coisas sem importância, trocava acentos de palavras, esquecia nomes de obras e de autores importantes da Literatura mundial, esquecia datas de aniversários, faltava a encontros, esquecia-se de rezar antes de dormir, e tudo isso era computado cuidadosamente por aqueles que o cercavam. Sim, senhores, Osmar errava e ninguém mais no mundo fazia isso. Era impressionante a legião de perfeitos que rodeavam a vida de Osmar. Especialistas em tudo, conhecedores profundos e profícuos memorizadores, pessoas cujos históricos não denotavam um errinho se quer, tudo era perfeitamente calculado e executado, logo, as chances de erro eram totalmente eliminadas. O único que não tinha o controle total de suas ações era Osmar.
Quando das situações constrangedoras a que Osmar se resignava tudo anoitecia em seus pensamentos, uma sensação de falta associada ao desejo de não existir tomavam conta de seu interior e abalava a tranqüilidade que construíra com tanto custo.
Era difícil viver num mundo de perfeitos sendo aquele que erra. Era inadmissível que alguém errasse. Seria o caso de buscar outras paragens? Seria o caso de entregar-se totalmente num grito de desespero, abrindo os braços errados e caindo, ou melhor, mergulhando no mar ácido de certezas do mundo perfeito? Ou seria melhor esconder-se, procurando ocultar o maior número de erros possível? Não, isso não seria verdadeiro. Eis o que fazia de Osmar o que errava, queria ser verdadeiro. Queria e se preocupava em imprimir sinceridade em tudo o que era e fazia. Se ocultasse seus erros, não teria deixado de errar, estaria enganando a si e aos outros. Ah os outros! Estes sim não erravam. Tinham direito de receber a grande honra da perfeição.
Depois de uma infinidade de erros e suas conseqüências dolorosas, Osmar virou uma corrente de ar. Isso aconteceu depois de mais ou menos uns setenta anos de erros.
Na situação de corrente de ar Osmar passeava pelo mundo dos perfeitos e pensava que agora não sofreria mais e nem faria ninguém mais sofrer com a aberração de seus erros. Era prazeroso circular fria e suavemente por entre as frestas de janelas, pelos vãos de portas e outras fendas mais que pudessem dar passagem à sua lânguida e acariciante existência. Osmar agora era lívido, plúmbeo, não importava a ninguém. Podia penetrar a intimidade da perfeição e, quem sabe, aprender para numa suposta outra existência errar menos, ou quem sabe até, nunca mais errar.
Mas acontece que como corrente de ar Osmar podia observar os perfeitos em suas verdadeiras faces. Aos poucos e com muito pesar, a corrente de ar flagrava um ou outro erro inesperado. Espantava-o incrivelmente que um perfeito errasse. Como era possível? Havia de estar enganado? Mais uma vez Osmar errava? Será que mesmo em condição de corrente de ar Osmar continuaria errando, e ainda por cima, contra aqueles que sempre foram perfeitos?
Não, senhores, Osmar corrente de ar finalmente percebeu que todos erram, e que sua existência de sucessivas angústias por ter errado fora inútil, pura perda de tempo. Ele era assim como os outros, e seus erros, a considerar a gravidade e o grau de influência maléfica aos seus semelhantes, eram quase nada se comparados aos erros que agora presenciava em forma de corrente de ar.
Como homem bom que era, igualmente corrente de ar se tornara, e, como devesse se vingar ou empreender qualquer outra forma de justiça, Osmar calou-se. Deixou o legado de não apontar os erros alheios com intenção ferina e decidiu-se por seguir fazendo com que todos acreditassem que jamais perceberia erros em qualquer pessoa senão em si mesmo. Deixou de ser corrente de ar e voltou a ser o homem que errava só que agora mais justo consigo e ainda mais puro de coração.          o e, quem sabe, aprender para uma suposta ssem dar passagem ns.a.s executado, loço,ado cuidadosamente por aqueles que o cercava


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