sem perdão

Era tarde, mais de duas horas da manhã. O silêncio da madrugada já havia amadurecido suficientemente e já era possível mover-se nos interstícios da cidade sem ser percebido por muita gente. Apenas um ou outro homem bêbado trocava os pés vagarosamente rua acima. Os sons, poucos e espaçados, se limitavam a latidos breves de cães, motores de motocicletas nas avenidas distantes e sombras sonoras de sirenes. O ar era denso e a temperatura curiosamente acima do que se espera para uma madrugada. Percebia-se um resto de verão que insistia. Apesar de ligeiramente incomodado com a situação, Lúcio caminhava pelo meio fio.
Caminhava apenas e procurava não pensar. Provisoriamente não pensava. Dirigia-se convicto ao lugar onde realizaria a ação mais importante daquele dia, ou de sua vida inteira, quem sabe? Em intervalos de pernas que se alternavam rítmicas, ouvia naquele silêncio grave os tecidos de suas roupas se roçando, sua respiração se alterando e prestava atenção em seus braços longos e desengonçados balançando ao lado de seu tronco grande e firme de homem maduro.
Talvez não quisesse mesmo chegar ao seu destino, talvez estivesse enganando a si mesmo desde quando tomou a decisão de destrancar a fechadura de sua casa àquela hora tão estranha e sair pela madrugada. Enquanto caminhava procurava imprimir sentido ao que decidira fazer. Tinha dúvidas, receava e agora já não conseguia mais conter os pensamentos que jorravam abundantes em sua cabeça.
Faltava ainda um trecho longo até o seu destino. Poderia não ir, simplesmente desviar-se de seu destino, virar uma das esquinas e tomar outro caminho. Perder-se em uma alameda, sentar-se em algum lugar e observar o resto da noite indo embora, enquanto respirava o ar morno daquela madrugada. Mas estranhamente, mesmo que lhe ocorressem todas essas possibilidades, suas pernas não conseguiam parar de levar seu corpo para o mesmo e conhecido caminho que fizera tantas vezes durante um longo período de sua vida.
Ao avistar finalmente a praça e a grande árvore que escurecia ainda mais a esquina do sobrado de Alice, resolveu parar e observar por algum tempo. Permaneceu ali ouvindo sua respiração e tentando organizar seus pensamentos. Dificilmente desistiria, estava convicto, determinado demais para voltar atrás. Já que chegara até ali não fazia sentido interromper seu plano e ter de lidar com as consequências de uma decisão como essa. Esperava apenas a hora exata de agir.
O que se segue não é diferente do que normalmente se espera em uma situação como essa agora envolvendo Lúcio e Alice. Depois de atravessar o portão e o jardim do sobrado, Lúcio enfia a chave na porta e, sem fazer alarde, destranca-a e entra. Uma luz fraca vinda do corredor ilumina o caminho até a escada. Avança cuidadosamente cada um dos degraus, como se os contasse e ao aproximar-se da porta semiaberta pára ainda um instante e pensa em recuar, mas é tarde demais para isso. Empurra a porta, entra no quarto e vai, vagarosamente aproximando-se da cama. Quando a proximidade é tão grande e sua presença no quarto escuro torna-se demasiadamente pesada, de um sobressalto Alice acorda e o observa assustada e confusa. Lúcio segura a cabeça de Alice com as duas mãos e, olhando fixamente em seus olhos, diz:
- Você me perdoa?

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