A Mecânica Aplicada de Nuno Rau
Por
André Merez
A
leitura dos poemas da Mecânica Aplicada de Nuno Rau conduz o
leitor a uma experiência de ruptura com a ilusão. Uma espécie de
convite à subversão do entendimento acomodado do mundo que acontece
por meio da subversão da própria poesia. Quem procure um espelho e
espere enxergar-se comodamente em seus versos ficará decepcionado, a
Mecânica Aplicada não foi escrita para isso, mas o
contrário, ela convida o leitor a quebrar esse espelho <mesmo
cortando os punhos> a fim de explorar o que está para além do
espelho, para além de si, o outro no mundo ou mesmo o outro
inesperado do próprio leitor.
Há
uma poética do risco, uma poética da interferência mecânica na
máquina do mundo. Nuno Rau quer que o leitor suje as mãos de graxa,
que ele participe ativamente da leitura, que ele caminhe ao lado dos
<hipopótamos que atravessam a rua sem esmagar as flores no
asfalto>, o que sugere uma aniquilação da obviedade entre a
leveza e o peso que essas duas forças comumente representam e que
para Nuno não são suficientes para a poesia. Não se trata da busca
meramente didática da verdade do mundo, mas da verdade que está por
baixo da verdade, o subterrâneo; aquilo que evitamos ver a Mecânica
Aplicada nos joga na cara.
No
belíssimo poema ‘trilhas’ o poeta nos convida a caminhar com ele
pela cidade extrema misturando-se a ela em tudo o que tem de
corrosivo e assombro, como se a cidade o dobrasse fazendo-o fluir em
uma corrente da qual ele faz parte, da qual todas as coisas e pessoas
fazem parte; as rugas do poeta (e as nossas) são as rachaduras dos
prédios, a água canalizada sob pressão é o sangue que corre em
suas veias. Tudo parece fluir numa pulsação ao mesmo tempo lenta e
veloz. Lenta porque observamos enumerados os carros, as pessoas,
esgotos, imagens, ferrugem, e veloz porque no retângulo da janela do
trem de subúrbio todas essas coisas passam a 100 Km/h.
No
poema ‘década’, oferecido a Antônio Carlos Secchin (autor do
texto que se encontra na quarta capa da Mecânica Aplicada), a
escrita sobre o tempo é a materia do poema. Não sua discussão, mas
sua não-observância. Ele passa sem que seja observado e apesar de
não ser observado. A chance de comunicar algo que possa encontrar
eco ou <tatuar em outro corpo a mesma marca> se perde e o tempo
segue indiferente. Talvez uma constatação melancólica e
compartilhada com um outro poeta, de uma falsa enunciação que a
poesia e os poetas suponham imprimir em quem os leia ao longo do
tempo.
Nos
entreatos e na seção final há ainda, como parte importante das
engrenagens da
Mecânica
Aplicada,
uma série de sonetos monostróficos que, subvertendo de modo
renovador a arte de Jacopo
Notaro,
oferecem um novo ar e um novo fôlego a essa forma tão presente e
tão importante na
poesia de
diversas épocas.
Para
a poesia de Nuno Rau e na maneira como os sonetos integram o livro,
encontra-se o que o próprio poeta declara como – extemporâneo –
ou seja, fora do momento oportuno, inadequado, atrevido, subversivo,
assim como grande parte do ideário reunido
no livro. O soneto nesse contexto subverte às avessas, justamente
utilizando a forma fixa para admitir que <a forma (é) fixa: o
conteúdo, não> . O poeta considera que <a vida, com seu
desconcerto louco, fugiu de vez da cela dos sonetos> e
faz isso com exímio domino dessa técnica dos quatorze versos
decassílabos.
SERVIÇO:
Título:
Mecânica Aplicada
Autor:
Nuno Rau
Editora:
Patuá
Gênero:
Poesia
Número
de páginas: 85
Ano
de publicação: 2017
Onde
comprar: Editora Patuá
